Lesões por “Overtraining”

Data de publicação: 
28/04/2010
Autores: 
Valdeci C. Dionisio
Descrição: 
Este artigo trata da etiologia, sintomatologia, diagnóstico do overtraining e o tratamento das lesões decorrentes do mesmo.
Temas: 
Fisioterapia esquelética
Palavras-chave: 
fisioterapia-músculoesquelética-treinamento

O treinamento físico de alto rendimento tem a finalidade de aproveitar o máximo potencial de um atleta de forma a maximizar sua performance. O treinamento serve para dar estímulos, cuja função é provocar respostas adaptativas fisiológicas e neurológicas positivas.
Para que esses objetivos sejam alcançados é necessário um planejamento do treinamento, com manipulação da intensidade e volume de treinamento. Também é preciso que haja um equilíbrio entre o esforço e o tempo de recuperação.
Entretanto, quando não há um bom planejamento do treinamento (periodização), ou mesmo não há um planejamento, pode ocorrer um excesso de treinamento.
O excesso de treinamento em curto prazo é chamado de “overreaching”. Ele é caracterizado por queda no desempenho em curto período de tempo. O desempenho pode retornar ao normal em poucos dias a cerca de duas semanas de recuperação.
O supertreinamento em longo prazo, chamado de “overtraining” é caracterizado por um decréscimo persistente no desempenho, acompanhado geralmente por alterações bioquímicas, fisiológicas e psicológicas, com o tempo de reversão entre algumas semanas a meses de recuperação.
O excesso de treinamento, quando presente, exibe sinais e sintomas entre os quais estão à fadiga crônica, estagnação ou decréscimo do desempenho, infecções respiratórias e alterações de humor.
Há várias teorias para explicar a etiologia do “overtraining”, embora ainda não seja bem definida. O desequilíbrio de aminoácidos circulantes pode ocorrer durante o exercício aeróbio de longa duração. Este desequilíbrio provocaria uma alteração na produção da serotonina. A serotonina é um neurotransmissor com várias funções, dentre elas na formação da memória, no nível de estresse, letargia (apatia, prostração), sono e humor. O desequilíbrio entre formação e degradação produz forte alteração na sua função e contribui para a queda no desempenho.
Variações no eixo hipotálamo-hipófise-adrenal podem ocorrer pelo estresse imposto pela atividade física, sobrepondo ao controle do “feedback” negativo exercido pelo cortisol. Haveria uma diminuição da sensibilidade da hipófise ao cortisol. O cortisol é o hormônio do estresse, o qual contribui para o aumento da pressão arterial e deprime o sistema imunológico.
A disfunção do sistema nervoso autônomo também tem sido considerada por haver evidências de fadiga central. Há aumento da freqüência cardíaca (FC) e pressão arterial (PA) ao repouso. Perda de apetite, perda de sono e irritabilidade caracterizando uma atividade simpática. Entretanto, em alguns atletas pode haver predomínio da atividade parassimpática, caracterizada por longos períodos de sono, queda da FC e PA ao repouso e depressão. A atividade simpática estaria relacionada a atletas que usam de grande potência e velocidade (saltadores, corredores e nadadores de curta distância). Já a atividade parassimpática estaria relacionada a corredores e nadadores de longa distância.
O aumento na produção de radicais livres também tem sido apontado como causa do overtraining, decorrente do exercício intenso. Essa grande produção de radicais livres seria capaz de produzir a queda no desempenho, fadiga e danos musculares.
Para avaliar a capacidade de adaptação ao treinamento e evitar o “overtraining”, vários indicadores são utilizados. Dentre eles estão indicadores fisiológicos como consumo máximo de oxigênio, FC, lactato sangüíneo; indicadores imunológicos como a quantidade de células de defesa; indicadores hormonais como a testosterona e o cortisol; indicadores hematológicos como hematócrito, eritrócito e creatina kinase; e indicadores psicológicos como distúrbios de humor às cargas de treinamento.
Quando um atleta apresenta o quadro de “overtraining” há diminuição da performance, na qual estão inclusos a redução da força muscular, perda de coordenação e concentração, o que favorece o aparecimento de lesões músculo-esqueléticas.
As lesões podem ser macrotraumas ou lesões agudas. Entre essas lesões estão as lesões musculares, ligamentares, fraturas e luxações.
As lesões também podem ser por microtraumáticas. Entre essas lesões estão as tendinites, bursites, fraturas por estresse.
O aumento da sobrecarga (deformação experimentada pelos tecidos quando uma carga é aplicada) sobre o sistema ME, provoca microtraumas, os quais ocorrem ao longo de um determinado tempo, chamados de microtraumas cumulativos, resultando em uma lesão crônica. Estas lesões apresentam basicamente três estágios. Inicialmente a dor aparece após a praticada atividade física; posteriormente a dor aparece no começo da atividade e depois do aquecimento desaparece, voltando a aparecer após o término da atividade; e finalmente, no terceiro estágio a dor está presente antes, durante e depois da atividade, de tal forma que o indivíduo é incapaz de ter bom desempenho.
A dor é decorrente de um processo inflamatório instalado para o reparo do tecido lesionado. Quando o processo inflamatório é suficientemente intenso, pode haver redução da amplitude de movimento e incapacidade de realizar tarefas mais simples relacionadas ao dia-a-dia. Por exemplo, uma lesão no joelho poderia limitar a capacidade de agachar, subir e descer escadas.
Exames por imagem como raios-X, ultra-sonografia e ressonância magnética podem ser utilizados. O RX fornece informações sobre o tecido ósseo, mas em determinadas lesões pode haver um processo de calcificação na região inflamada, e pode ser revelada por este exame. A ultra-sonografia pode revelar as alterações dos tecidos moles, como o nível de inflamação, hematoma, formação de fibrose e calcificação. Entretanto, este é um exame operador dependente e pode haver erro diagnóstico com mais freqüência. A RM é a mais completa e pode dar informações mais precisas e confiáveis sobre a área lesionada incluindo todas as informações anteriormente citadas.
O tratamento de um indivíduo que apresenta o “overtraining” certamente é o repouso, cuja duração pode ser de semanas a meses. Quando o indivíduo também apresenta lesões músculo-esqueléticas, tanto o tratamento médico quanto o fisioterapêutico dependerão do que tipo de lesão. Nas lesões agudas ou macrotraumas, geralmente o indivíduo terá um tratamento que inclui imobilização para que ocorre o reparo dos tecidos lesionados (luxação, fraturas e algumas lesões ligamentares). No entanto, há outras situações em que necessária uma reparação cirurgia (algumas lesões ligamentares, algumas fraturas e luxações). Nesse caso, também pode haver um período de repouso e posteriormente o indivíduo inicia a reabilitação, mas por vezes esse período é muito curto ou mesmo nem existir, iniciando a reabilitação precocemente.
Nos macrotraumas cujo tratamento tenha envolvido a imobilização, por algum tempo, 3 a 6 semanas por exemplo, o fisioterapeuta encontrará um indivíduo com limitações articulares decorrentes da rigidez ou restrição capsular, o que produz dor ao movimento. Também haverá hipotrofia muscular, eventual presença de edema residual e gravitacional (depende do local da lesão) e alteração sensório-motora. Nestes casos, o fisioterapeuta terá o objetivo de aumentar a amplitude de movimento por meio da redução da rigidez articular, o que produzirá a redução da dor. Também a recuperação da estabilidade das articulações acometidas e a ativação da circulação por meio do fortalecimento muscular e reeducação sensório-motora devem ser objetivadas.
Nos macrotraumas cujo tratamento tenha envolvido um procedimento cirúrgico, no caso de o indivíduo ficar em repouso por algumas semanas, os objetivos são similares ao já descrito. Entretanto, o indivíduo muitas vezes é encaminhado à fisioterapia pouco tempo após a cirurgia (uma semana, dois dias ou menos). Nesses casos, o fisioterapeuta deve levar em consideração que a redução da amplitude de movimento, da força muscular, devem não à imobilização ou restrição capsular, mas sim ao quadro inflamatório ali instalado, o qual provoca dor ao movimento e ao repouso. Nesse caso, o fisioterapeuta deve considerar o objetivo de redução da inflamação por meio do estímulo à cicatrização dos tecidos inflamados, o que conduzirá também à redução da dor. A estabilidade das articulações acometidas e a ativação da circulação, por meio do fortalecimento muscular e reeducação sensório-motora também devem ser objetivados.
Para o sucesso na reabilitação de lesões decorrentes do “overtraining”, é imperativo que os mecanismos geradores das lesões sejam identificados. Também, o trabalho multidisciplinar é fundamental para cobrir todos os aspectos envolvidos na geração de lesões. Por exemplo, a redução da autoconfiança, medo de relesão, ansiedade e incerteza podem acompanhar os indivíduos em reabilitação e necessitam de suporte de profissional.

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